Pular para o conteúdo principal

Política de Contratação Segura

1. Objetivo​

Esta política define os requisitos de segurança aplicáveis ao ciclo de vida contratual com fornecedores, parceiros e contractors que acedem a sistemas, dados ou infraestrutura da organização.

A externalização de competências técnicas e o recurso a serviços de terceiros são práticas operacionais correntes. No entanto, cada fornecedor ou contractor com acesso técnico representa um vector de risco adicional: pode introduzir vulnerabilidades, ter acesso a dados sensíveis sem enquadramento adequado, ou manter acesso residual após o términus do contrato. A gestão deste risco não pode ser relegada para uma cláusula genérica de confidencialidade - exige um processo estruturado que começa antes da assinatura do contrato e termina apenas com o offboarding verificado.

O objetivo desta política é garantir que:

  • A avaliação de segurança de fornecedores é realizada antes de qualquer contrato que envolva acesso a sistemas ou dados
  • Os contratos incluem cláusulas de segurança proporcionais ao nível de risco da relação
  • O onboarding técnico de contractors é condicionado à conclusão de formação mínima obrigatória
  • A conformidade dos fornecedores activos é monitorizada e reavaliada periodicamente
  • O offboarding é executado de forma imediata, completa e auditável

2. Âmbito e obrigatoriedade​

Esta política aplica-se a todos os fornecedores, parceiros e contractors que:

  • Acedem a sistemas, plataformas ou infraestrutura da organização
  • Desenvolvem, mantêm ou operam componentes de software em nome da organização
  • Processam, armazenam ou transmitem dados da organização ou dos seus utilizadores
  • Têm acesso a ambientes regulados (produção, dados de saúde, dados financeiros, PII)
NívelObrigatoriedade
L1Obrigatório; cláusulas de segurança proporcionais (confidencialidade e boas práticas); validação do fornecedor antes do onboarding, com questionário ou checklist; contacto de segurança definido
L2Obrigatório; due diligence pré-contratual; cláusulas SbD-ToE; onboarding documentado; reavaliação anual
L3Obrigatório; due diligence formal; auditoria técnica; cláusulas completas; SBOM e relatórios de testes obrigatórios; reavaliação semestral; direito formal de auditoria

3. Due diligence pré-contratual​

Antes de estabelecer qualquer relação contratual com acesso técnico, deve ser realizada uma avaliação de segurança proporcional ao nível de risco:

3.1 Critérios de avaliação​

CritérioL2L3
Política de segurança da informação documentadaVerificaçãoObrigatório + evidência
Processo de gestão de vulnerabilidadesVerificaçãoObrigatório + SLA definido
Incidentes de segurança nos últimos 12 mesesDeclaraçãoDeclaração + análise
Certificações ou conformidade com normas (ISO 27001, SOC 2, etc.)RecomendadoObrigatório para acesso a dados regulados
Capacidade de entrega de SBOMNão aplicávelObrigatório para software desenvolvido
Relatórios de testes de segurança recentesRecomendadoObrigatório
Processo de offboarding documentadoRecomendadoObrigatório

3.2 Resultado da due diligence​

O resultado da due diligence deve ser documentado e aprovado antes da assinatura do contrato:

  • Aprovado sem condições: relação contratual estabelecida
  • Aprovado com condições: contrato estabelecido com plano de remediação de lacunas identificadas e prazo definido
  • Rejeitado: fornecedor não elegível para relação com acesso técnico até resolução das não-conformidades

4. Cláusulas contratuais mínimas de segurança​

Todos os contratos que impliquem acesso técnico devem incluir cláusulas de segurança proporcionais ao nível de risco:

4.1 Cláusulas universais (todos os níveis)​

CláusulaDescrição
ConfidencialidadeObrigação de confidencialidade de dados, credenciais e arquitetura
Notificação de incidentesPrazo de notificação de incidentes de segurança à organização (sem demora injustificada e ≤ 24 horas após o conhecimento)
Uso aceitávelProibição de acesso além do estritamente necessário para o âmbito contratual
SubcontrataçãoProibição ou condicionamento de subcontratação com acesso a dados ou sistemas
Rescisão por incumprimentoCláusula de rescisão imediata em caso de violação de segurança grave

4.2 Cláusulas adicionais por nível de risco​

NívelCláusulas adicionais
L1Compromisso genérico com boas práticas; política de notificação de incidentes
L2Aplicação do Catálogo SbD-ToE; fornecimento de evidência técnica sob solicitação; SLA para resolução de vulnerabilidades críticas
L3Testes de segurança periódicos obrigatórios (com relatório entregue); SBOM entregue por release; SLA para correções críticas (≤ 72 horas); direito formal de auditoria técnica pela organização; requisitos de formação de segurança para pessoal com acesso

4.3 Modelo contratual de referência​

A organização deve manter um modelo contratual padrão com cláusulas de segurança validadas juridicamente, actualizado anualmente ou após alterações regulatórias relevantes. O modelo deve ser disponibilizado a Procurement e Jurídico como referência de negociação - as cláusulas de segurança são requisitos mínimos, não pontos de negociação em contratos L2/L3.

4.4 Subcontratantes de dados pessoais (RGPD, art. 28.º)​

Quando o fornecedor trata dados pessoais por conta da organização, é subcontratante no sentido do RGPD, e o tratamento é regulado por contrato, em qualquer nível. O contrato define o objeto, a duração, a natureza e a finalidade do tratamento, o tipo de dados pessoais e as categorias de titulares, e obriga o subcontratante a:

  • tratar os dados só mediante instruções documentadas da organização, incluindo quanto a transferências, e informá-la se considerar que uma instrução viola a lei de proteção de dados;
  • garantir que as pessoas autorizadas estão sujeitas a confidencialidade;
  • adotar as medidas de segurança do art. 32.º do RGPD (as cláusulas das secções 4.1 e 4.2 são o mínimo);
  • só recorrer a outro subcontratante com autorização prévia da organização e nas mesmas condições;
  • ajudar a organização a responder aos pedidos dos titulares (ver PRI-003) e a cumprir as obrigações de segurança, de notificação de violações e de avaliação de impacto;
  • no fim da prestação, apagar ou devolver os dados e apagar as cópias, salvo obrigação legal de conservação (ver PRI-002);
  • disponibilizar a informação necessária para demonstrar o cumprimento e permitir auditorias.

Para os fornecedores de serviços de IA, a secção 10 acrescenta as cláusulas específicas.


5. Onboarding técnico de contractors​

Contractors que acedam a sistemas ou repositórios da organização devem completar um processo de onboarding técnico antes de receberem permissões:

5.1 Processo de onboarding​

EtapaDescriçãoObrigatoriedade
Trilho formativo mínimoFormação sobre políticas de segurança, gestão de credenciais, acesso a dados, reporte de incidentesL2/L3 obrigatório; L1 recomendado
Validação de compreensãoQuiz ou teste com nota mínima de 80%L2/L3 obrigatório
Assinatura de termos específicosTermo de responsabilidade e confidencialidade individualTodos os níveis
Ambiente sandboxAcesso inicial a ambiente de desenvolvimento isolado antes de produçãoL3 obrigatório
Atribuição de permissões mínimasAcesso com princípio do menor privilégio; sem acesso a produção sem aprovação explícitaL2/L3 obrigatório

5.2 Bloqueio de acesso​

O acesso a sistemas da organização é bloqueado até conclusão de todas as etapas de onboarding obrigatórias. A conclusão deve ser registada (LMS, sistema de RH ou ferramenta equivalente) e associada à identidade do contractor.


6. Monitorização de conformidade de fornecedores activos​

A relação contratual não termina com a assinatura - os fornecedores activos com acesso técnico devem ser monitorizados continuamente:

6.1 Indicadores de conformidade a monitorizar​

IndicadorDescrição
Cumprimento de SLA de correção de vulnerabilidadesTempo entre notificação e remediação confirmada
Entrega de artefactos contratuaisSBOM, relatórios de testes, relatórios de auditoria (onde aplicável)
Notificação de incidentes dentro do prazoConformidade com o prazo contratual de notificação
Ausência de incidentes de segurança atribuídos ao fornecedorRegisto de ocorrências

6.2 Reavaliação periódica​

NívelCadênciaÂmbito
L1AnualRevisão de cláusulas e conformidade básica
L2AnualDue diligence actualizada; verificação de SLAs; análise de incidentes
L3SemestralDue diligence técnica completa; revisão de artefactos; verificação de certificações; análise de risco residual

O resultado da reavaliação deve originar uma decisão documentada:

  • Continuidade sem alterações: conformidade mantida
  • Continuidade com plano de melhoria: lacunas identificadas com prazo de resolução
  • Penalização contratual: incumprimento de SLA com impacto financeiro (se previsto)
  • Substituição: não-conformidade grave ou risco inaceitável

7. Offboarding seguro​

O offboarding de um contractor ou a rescisão de um contrato com fornecedor devem ser executados de forma imediata e verificável:

7.1 Checklist de offboarding​

  • Revogação de todos os acessos (sistemas, repositórios, ferramentas, VPN, credenciais de serviço)
  • Remoção de chaves SSH, tokens, API keys e certificados emitidos em nome do contractor/fornecedor
  • Recuperação de equipamentos ou activos da organização fornecidos ao contractor
  • Confirmação de eliminação ou devolução de dados da organização em posse do fornecedor (quando aplicável)
  • Desactivação de contas nos sistemas de identidade (IdP, Active Directory, etc.)
  • Registo documentado da conclusão do offboarding (timestamp, responsável, estado de cada item)

7.2 Prazos de offboarding​

Tipo de saídaPrazo máximo para revogação de acessos
Saída planeada (fim de contrato)No próprio dia de terminus
Saída não planeada (rescisão imediata)≤ 2 horas após decisão
Rescisão por causa de segurançaImediato - revogação prioritária antes de qualquer outro procedimento
aviso

A manutenção de acessos activos após o términus do contrato é uma das causas mais comuns de acessos residuais não autorizados. O processo de offboarding deve ser automatizado ao máximo para evitar dependência de acção manual sob pressão ou com lacunas de informação.


8. Registo e rastreabilidade​

Para cada fornecedor e contractor, a organização deve manter um registo actualizado que inclua:

ArtefactoConteúdoRetenção
Resultado de due diligenceAvaliação pré-contratual, decisão, condiçõesDuração do contrato + 3 anos
Contrato com cláusulas de segurançaVersão assinada com cláusulas aplicáveisDuração do contrato + 5 anos
Registo de onboardingTrilho formativo, quiz, permissões iniciaisDuração do contrato + 1 ano
Registos de reavaliaçãoResultados de cada ciclo de avaliação periódicaDuração do contrato + 3 anos
Registo de offboardingChecklist concluído, timestamp, responsável5 anos

9. Responsabilidades​

RoleResponsabilidade
Procurement / JurídicoGarantir que contratos incluem cláusulas de segurança mínimas; conduzir negociação com modelo de referência
GRC / ComplianceManter modelo contratual actualizado; conduzir due diligence; auditar conformidade; reavaliações periódicas
AppSec EngineerDefinir requisitos técnicos de segurança a incluir nos contratos; avaliar artefactos técnicos (SBOM, relatórios); apoiar due diligence técnica
Security ChampionExecutar onboarding técnico de contractors; verificar conclusão de formação antes de atribuição de acessos
DevOps / SREExecutar revogação técnica de acessos no offboarding; gerir identidades e permissões
RHCoordenar processo de onboarding/offboarding com Security Champion; registar conclusão nos sistemas de RH

10. Anexo — Cláusulas específicas para fornecedores de serviços de IA​

Quando o fornecedor é um fornecedor de serviços de IA — fornecedor de modelos de IA (Anthropic, OpenAI, Google, Mistral, Cohere, HuggingFace ou self-hosted equivalente), o conjunto de cláusulas contratuais previstas na secção 4 é estendido com seis cláusulas específicas. Não substituem nenhuma das anteriores — adicionam disciplina à fatia AI.

10.1 Data retention e training opt-out​

  • Política de retenção do fornecedor de serviços de IA explicitada: durante quanto tempo dados enviados são retidos; em que sistemas; com que controlos de acesso.
  • Training opt-out contratualizado quando aplicável — preferência por zero retention para dados sensíveis (PII, código proprietário, segredos potencialmente expostos em prompts).
  • Quando o fornecedor de serviços de IA tem training "opt-out por defeito", essa garantia é declarada na ficha de aprovação (cross-link DEP-014).

10.2 Localização de processamento​

  • Documentar onde os dados são processados (região, centro de dados, jurisdição).
  • Conformidade com RGPD Art. 44–49 quando há dados pessoais — Standard Contractual Clauses (SCCs), Adequacy Decision, ou outro mecanismo válido.
  • Cláusulas específicas para international transfers quando os dados saem do EEA.

10.3 Audit rights​

  • Direito contratual a aceder a logs de inferência ou equivalente quando exigido (típico em L3 e em sistemas regulados — DORA Art. 30(3)(e), AI Act, art. 26.º, n.º 6).
  • Em alternativa, audit reports periódicos (SOC 2 Type II, certificação ISO/IEC 42001, declaração UE de conformidade do Art. 47 quando o sistema fornecido é de risco elevado, ou documentação do Art. 53/Anexo XII quando GPAI).

10.4 SLA de notificação prévia​

  • Notificação antes de mudanças que alterem comportamento: versão maior do modelo, política de dados, descontinuação, mudança de localização.
  • SLA mínimo expectável: ≥ 30 dias para mudanças não-emergência; o que for tecnicamente possível para emergências.
  • Sem notificação adequada → dispara revisão proactiva e potencial accionamento do fallback arquitectónico (Cap. 04 §AI/ML).

10.5 SLA de disponibilidade e fallback​

  • SLA de disponibilidade declarado; mecanismo de comunicação em caso de outage.
  • A arquitectura do sistema considera fallback para quando o fornecedor de serviços de IA está indisponível ou retorna outputs degradados (cross-link ARC-014/ARC-015).

10.6 Conformidade regulatória declarada​

  • AI Act Art. 53 (obrigações dos prestadores de modelos de IA de finalidade geral): documentação técnica do modelo (n.º 1, al. a)), informações e documentação para os prestadores a jusante (al. b)), política de cumprimento do direito da União em matéria de direitos de autor (al. c)) e resumo público dos conteúdos utilizados para o treino (al. d)).
  • AI Act Art. 55 (obrigações dos prestadores de modelos de IA de finalidade geral com risco sistémico): avaliação do modelo com «testagens antagónicas» documentadas (n.º 1, al. a)), avaliação e atenuação de riscos sistémicos (al. b)), acompanhamento e comunicação de incidentes graves ao Serviço para a IA (al. c)) e proteção de cibersegurança do modelo e da sua infraestrutura física (al. d)).
  • RGPD, art. 28.º (subcontratantes): contrato com o subcontratante (n.º 3) e informação prévia sobre a contratação ou substituição de outros subcontratantes (n.º 2).
  • NIS2 Art. 21 e DORA Art. 28–30: aplicável a qualquer terceiro prestador de serviços de TIC a entidade abrangida; requisitos contratuais reforçados quando o serviço apoia funções críticas ou importantes (DORA art. 30.º, n.º 3).

10.7 Operacionalização​

  • O fornecedor de serviços de IA entra na lista aprovada DEP-014 apenas após validação das cláusulas 10.1 a 10.6 (proporcional ao nível de risco).
  • Cláusulas críticas registadas na ficha do fornecedor de serviços de IA; revisão calendarizada das cláusulas do fornecedor de serviços de IA — objecto distinto da reavaliação geral de fornecedores (secção 6) — conforme o nível de risco (L1 anual; L2 semestral; L3 trimestral).
  • Detalhe operacional completo em Policy 39 — AI BOM e Supply Chain e no Cap. 14 US "Contratação de provedores AI".
CláusulaL1L2L3
10.1 Retention + opt-outRecomendadoObrigatórioObrigatório (zero retention para PII)
10.2 LocalizaçãoRecomendadoObrigatórioObrigatório + SCCs/Adequacy
10.3 Audit rights—RecomendadoObrigatório
10.4 SLA notificaçãoRecomendadoObrigatórioObrigatório (≥30d)
10.5 SLA disponibilidade + fallbackRecomendadoObrigatórioObrigatório
10.6 Conformidade regulatória declarada—Aplicável quando relevanteObrigatório quando GPAI ou dados pessoais

11. Revisão e auditoria desta política​

Esta política deve ser revista anualmente ou após qualquer um dos seguintes eventos:

  • Incidente de segurança envolvendo um fornecedor ou contractor
  • Alteração regulatória que modifique obrigações de due diligence ou notificação (ex: DORA, NIS2, RGPD)
  • Resultado de auditoria que identifique lacunas no processo de contratação ou offboarding

12. Referências normativas e técnicas​

ReferênciaRelevância
SbD-ToE Cap. 14 - Governança & ContrataçãoUS-02: cláusulas; US-14: reavaliação; US-15: onboarding contractors; US-17: offboarding; US-21 — Contratação de providers AI
Política de Rastreabilidade Organizacional (34_policy-rastreabilidade-organizacional.md)Registo e evidência de conformidade
Política de Gestão de Segredos (18_policy-gestao-segredos.md)Credenciais de contractors e revogação
Política de AI BOM (39_policy-ai-bom-supply-chain.md)Operacionalização do ciclo de vida de fornecedores de serviços de IA
Política de Mandates de Agentes AI (38_policy-mandates-agentes.md)Quando o fornecedor de serviços de IA fornece agentes / runtimes
ISO/IEC 27001 - A.15Supplier relationships
ISO/IEC 27036Information security for supplier relationships
ISO/IEC 42001:2023AI Management System — relações com fornecedores AI
NIST SP 800-161Cybersecurity Supply Chain Risk Management
NIST AI RMF 1.0 — MAP-4.xThird-party AI risk
RGPD - Art. 28.º, 44.º–49.ºSubcontratantes; transferências internacionais
DORA - Art. 28-30ICT third-party risk management
NIS2 - Art. 21Supply chain security measures
EU AI Act (Reg. (UE) 2024/1689) - Art. 25, 26, 47, 53, 55Responsabilidades ao longo da cadeia de valor da IA (art. 25.º); obrigações dos responsáveis pela implantação (art. 26.º); declaração UE de conformidade (art. 47.º); obrigações dos prestadores de modelos de IA de finalidade geral (art. 53.º e 55.º)